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Professora norte-americana reflete sobre o dogma de criação de valor ao acionista

13/10/2014
Especialista em Governança chama a atenção para as consequências e alternativas

Como portadora de más notícias das sociedades anônimas dos EUA, a professora da Cornell Law School, Lynn Stout, discursou no segundo painel do 15º Congresso IBGC de Governança Corporativa sobre o mito do valor ao acionista a fim de evitar que as companhias nacionais tenham o mesmo destino das norte-americanas. 

Stout sinaliza redução drástica no número de listadas em seu país, passando de 9 mil para 4 mil. “Se fossemos uma espécie, estaríamos em ameaça de extinção.” Outros pontos preocupantes estão no desparecimento das grandes empresas, que décadas atrás ficavam no índice Forbes por 60 anos, enquanto hoje permanecem por 15 anos, bem como o tempo de permanência de investimento também diminuiu nos últimos 25 anos. “Também temos infinitos exemplos de problemas, como a crise financeira de 2008, problemas com derivativos e desastres ambientais, a exemplo da BP”, exemplifica e explica que isso focando nos acionistas sem considerar os outros públicos. 

As causas não estariam nas más pessoas e sim nas más ideias empenhadas pelas empresas. “Isso que chamo de ideologia de criação de valor ao acionista”. Nesse sentido, Stout conta algumas das premissas que estariam equivocadas, como as empresas terem foco no preço das ações e de que a melhor forma de mensurar é por meio desse instrumento. 

A ascensão dessa ideologia produziu duas consequências, segundo Stout, sendo uma delas relevante também ao Brasil. A primeira está no ativista-acionista, liderados por fundos de hegde que ficam com ações por menos de dois anos e, portanto, com visão de curto prazo. Situação não comum ao cenário nacional, já que grande parte das empresas brasileiras possui controle definido. 

A segunda consequência está na visão de que retorno ao acionista é uma boa prática de Governança. A origem estaria na “indústria da Governança”, que se voltava para indicar regras comuns a diferentes companhias com o propósito de melhorias. “E uma das [regras] mais disseminadas é a que liga o desempenho da empresa ao de retorno de acionista. Isso foi catastrófico”, avalia ela, que se apresenta como representante de uma minoria crescente de líderes que acreditam que a crença do valor para o acionista está produzindo péssimos resultados. 

Verdadeiros donos
Stout chama a atenção para a questão legal. “As empresas anônimas é uma entidade jurídica, então são donas de si mesmas e não os acionistas. Nas empresas com controlador, ele tem enorme poder, mas também deve obedecer ao dever de diligência e outras responsabilidades.” Nesse sentido, aponta que o acionista não pode ser considerado o requerente residual e sim a própria empresa. 

Como alternativa ao atual dogma, Stout indica incentivar a transparência aos stakeholders externos e internos e a não condicionar a remuneração dos executivos ao desempenho das ações. “A informação deve ser cada vez mais completa e confiável e deve-se usar outro critério além da performance, como pesquisa de satisfação”, ilustra ela que recomenda aos conselheiros recuperar seu poder e discrição.

“Para mim, há um entendimento maior que os conselheiros têm uma posição única e precisamos confiar na sua honra e integridade. A chave é selecionar profissionais de honra e não criar tentações”, sintetiza Stout.
    

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