Intensificando relacionamento entre conselhos e auditoria independente

Trabalho dos auditores é importante mecanismo de salvaguarda da governança corporativa



  • 13/10/2020
  • Antônio Bizzo e Marcelo José de Aquino
  • Artigo

Os auditores independentes têm um papel importante na governança corporativa das empresas, na medida em que executam um trabalho técnico voltado a avaliar se as demonstrações contábeis são elaboradas, em todos os aspectos relevantes, de acordo com as práticas contábeis adotadas no Brasil (estrutura de relatório financeiro aplicável). Algumas pesquisas parecem sugerir que demonstrações contábeis auditadas por auditores independentes gozariam de maior credibilidade, comparativamente àquelas que não são submetidas à auditoria. Naturalmente, é sempre bom lembrar que a auditoria das demonstrações contábeis por auditores independentes não se trata de chancela, certificado ou seguro! 

É possível que  erros e/ou falhas, intencionais ou não, ocorram de forma que exames de auditoria nem sempre sejam capazes de identificar. Caso isso ocorra por algum tipo de falha nos exames dos auditores independentes, esses devem ser assumidos no limite das suas responsabilidades e do seu papel na governança corporativa. Aliás, qual profissão está imune a possíveis erros, já que estamos falando de trabalhos realizados por um conjunto de pessoas?  

Por outro lado, quem estaria disposto, por exemplo, a colocar seu dinheiro em um banco ou comprar ações de uma empresa sem que um auditor independente tenha examinado os respectivos demonstrativos contábeis? Pode ser que exista esse indivíduo, mas certamente haverá um agravamento do risco que será precificado. 

Nesse contexto, em uma realidade onde cada vez mais empresas estão buscando implementar e praticar boas práticas de governança corporativa, os conselheiros, sejam de administração ou fiscal, além dos membros do comitê de auditoria, deveriam considerar o trabalho dos auditores como um importante mecanismo de salvaguarda da governança corporativa, além dos seus próprios mandatos, e não apenas como um mero requerimento normativo. 

Diversas publicações do IBGC - Instituto Brasileiro de Governança Corporativa, e de órgãos reguladores de mercado, abordam as boas práticas de relação de conselheiros com a auditoria independente. Entretanto, a seguir ratificamos algumas considerações importantes para auxiliar no aprimoramento da relação entre conselheiros e auditores independentes, principalmente quando não se tem um comitê de auditoria estatutário: 

a) não faça apenas uma reunião protocolar com os auditores. Deixe na agenda um tempo razoável para discutir com eles como foi o trabalho;

b) desafie os auditores e obtenha detalhes da abrangência e resultado do trabalho; 

c) exija com antecedência o recebimento das demonstrações contábeis preparadas pela administração, para avaliação e comentários. Assim, na reunião o conselheiro poderá fazer perguntas pertinentes aos auditores. É incrível como ainda faltam perguntas desafiadoras e ausência de leitura das demonstrações contábeis pelos conselheiros; 

d) estude pelo menos o básico sobre as práticas contábeis, em especial as discricionárias adotadas pela administração, para debate com o auditor e avaliação da qualidade dos resultados apresentados, mesmo que você não seja o especialista em finanças e contabilidade; 

e) separadamente da administração, pergunte ao auditor como foi o seu trabalho, se não houve algum tipo de limitação ou pressão; 

f) pergunte se percebeu algo diferente na gestão, em relação ao ano anterior; 

g) apoie com firmeza os auditores, na apuração de casos de suspeitas e investigações de possíveis atos ilegais. O cumprimento de prazos regulamentares na entrega das demonstrações contábeis não deve se sobrepor aos cuidados com esses assuntos; 

h) avalie a dedicação dos responsáveis técnicos nos trabalhos de auditoria independente. Ter muitos clientes sendo atendidos pode ser um problema. Então, é melhor remunerar de forma justa para ser bem atendido e com qualidade; 

i) avalie os treinamentos executados pelos auditores, ferramentas de trabalhos, experiência e o valor agregado; 

j) leia com cuidado e acompanhe a implementação das recomendações dos auditores; 

k) debata os principais assuntos de auditoria (PAA´s) que serão inseridos no relatório de auditoria, quando aplicável;

l) avalie quantitativamente e qualitativamente quais os ajustes de auditoria foram acatados pela administração e os não acatados (abaixo da materialidade);  

m) e avalie se os honorários e as horas alocadas são compatíveis com o risco assumido pelo auditor e o porte da empresa auditada. Preço é um fator importante em qualquer prestação de serviços, mas pode comprometer a qualidade dos serviços entregues.

Menos honorários pode significar menos auditoria. Sempre que existe uma fraude contábil é comum perguntar onde estavam aos auditores independentes. Mas a pergunta certa seria: “onde estava a governança corporativa da empresa?”. 

Lembre-se, o auditor independente é um apoio importante no processo de governança corporativa das empresas e na segurança ao cumprimento dos mandatos dos próprios conselheiros. 

Portanto valorize sempre esse seu aliado, o auditor independente!

Autores:

Antônio Bizzo, coordenador geral do Núcleo do IBGC em Brasília, conselheiro de administração certificado pelo IBGC, bacharel em economia com pós-graduações em finanças pelo IBMEC e FGV, tendo cursado o Senior Executive Programme da London Business School

Marcelo Jose é de Aquino,  auditor Independente, Mestre e Doutorando em Ciências Contábeis e membro da coordenação do núcleo de Brasília do IBGC


Este artigo é de responsabilidade das autoras e não reflete, necessariamente, a opinião do IBGC.

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