Conselheiros experientes devem considerar projeto pessoal de educação, alerta especialista

Para Oscar Boronat, que coordena curso avançado para conselheiros no IBGC, velocidade de mudança é a maior responsável por essa realidade hoje

  • 14/09/2022
  • Gabriele Alves
  • Bate-papo

Uma recente publicação do IBGC descreve que “as rápidas e profundas mudanças políticas, econômicas, sociais, tecnológicas, legais e ambientais têm exigido da força de trabalho uma permanente atualização, levando as organizações a criarem políticas e programas voltados a capacitação e aperfeiçoamento contínuos dos seus quadros profissionais”.

Mas neste contexto, segundo Oscar Boronat, um conselheiro que julga ocupar níveis de conhecimento mais avançados e, por isso, dribla esta realidade, pode caminhar para direções indesejadas. “Isso é uma verdadeira armadilha”, orienta o especialista que é conselheiro de administração independente, especialista em governança corporativa e coordenador do curso do IBGC “Avançado para Conselheiros de Administração”.

Ao Blog IBGC, Boronat - que tem participado de conselhos de administração e comitês em empresas multinacionais e familiares na América do Sul e Europa por mais de 30 anos - falou sobre os desafios da jornada de educação continuada, compartilhou recomendações a conselheiros mais experientes e explicou como o curso que coordena pode contribuir com a carreira deste público. Confira o papo, a seguir:

BLOG IBGC: Na sua visão, o acúmulo de conhecimento e a experiência medida em anos de trabalho são elementos que dificultam a adesão de conselheiros experientes ao caminho do aperfeiçoamento?
É claro que por ser conselheiro em uma empresa muito grande ou por ser muito respeitado pelos outros, devido a experiência acumulada, mais avançado você se julga. Mas isso é uma armadilha, porque você só conseguiu isso por estar sempre atualizado, bem informado e treinado nas ferramentas necessárias. O acúmulo de conhecimento é importante, mas o acúmulo de vivências é muito mais. O ponto de atenção fundamental é que, com a velocidade de mudança de hoje, as coisas se obsoletam com uma velocidade muito maior do que a gente já vivenciou. Certa vez, em uma discussão com um acadêmico no Vale do Silício, ele me disse que sabia a linguagem de programação que iria discutir em um determinado curso, no início, mas não sabia se ela se sustentaria ao final. Ou seja, o que quero dizer é que essa velocidade pode tornar o valor de boa parte do conhecimento, acumulado pelos conselheiros, obsoleto. Digo boa parte porque um conselheiro avançado, geralmente, tem uma estrutura básica forte. Mas com a velocidade que as coisas mudam hoje, tudo isso pode se limitar a um valor histórico, mas inútil para prática. Então, a experiência é boa no sentido da vivência. Agora, a experiência com conhecimento ultrapassado ou desatualizado se perde.

Como encontrar oportunidades para solucionar este desafio?
É aí que entra a importância da educação continuada. Geralmente, ela é um caminho que acaba tendo uma conotação de que estamos sempre aprendendo ou nunca paramos de estudar. Mas com velocidade de mudança de hoje, educação continuada não é só atualização. Tem gente que diz que lê muito jornal e está atualizado. Isso é uma das formas de atualização. E um conselheiro que escolhe este caminho não está fazendo nada além do que se manter informado sobre o mundo. Se você considera isso educação continuada como algo que configura um diferencial no seu acúmulo de conhecimento ultrapassado, você está vivendo em outro mundo. Pra mim, a educação de uma maneira geral tem a ver com o profissional que você quer ser. Você, periodicamente, tem que olhar pra seus objetivos, seu momento e para o seu acúmulo de conhecimento. A partir daí, prestar atenção nas palavras que precisa se aprofundar para entender o novo mundo. E, assim, analisar o quanto precisa pesquisar para entender significados novos ou siglas novas, porque não basta saber que elas existem, você precisa ter uma opinião sobre isso. ‘Qual tua visão? Pra onde isso leva? O que de fato isso significa?’ São algumas perguntas possíveis a se fazer pensando neste desafio. Dito isso, você tem que ter um autoconhecimento muito claro para pensar o profissional que você quer ser ou quais são as áreas que você não pode perder absolutamente nada.

Neste sentido, quais estratégias um conselheiro experiente pode adotar na sua rotina?
Primeiro, definir um propósito, por exemplo, ‘como continuar bom naquilo que eu faço’. Isso é um propósito. ‘Mas o que fazer para continuar a ser bom? O que está em transformação? O que está em mudança?’ Aqui não se trata de só ver coisas novas.  Por isso, recomendamos que diante desta análise toda, seja desenvolvido um projeto de educação pessoal para determinado período, não muito longo. Isso anualmente, por exemplo. Essa clareza sobre autoconhecimento contribui para olhar o ponto que você está e para onde você quer chegar. E lembrar que educação, de uma maneira geral, não é só ler um livro, aprender um conceito novo e ter uma aula ou workshop. Eu, provavelmente, aprendi muito mais com as jornadas técnicas do IBGC ou com viagens de outras instituições que fiz parte, com viés de governança, porque essas oportunidades te expõem ao mundo e à prática de ver as coisas de uma outra forma. Com isso, você encontra boas maneiras para influenciar os processos de mudança e os de tomada de decisão. Ou seja, as estratégias passam por autoconhecimento, propósito e, acrescento: tem que ser muito eclético na forma de absorver essa atualização, pois o digital é o novo básico.

Como coordenador do curso do IBGC “Avançado para Conselheiros de Administração” qual é o diferencial para a carreira dos que escolhem trilhar essa jornada com suporte de um curso como esse?
O programa avançado tem uma característica muito forte que é reunir um público experiente. Mas como você transforma um público experiente em melhor ainda? Eu tenho que fazer germinar neste público as sementes do interesse e da expectativa sobre assuntos que ele não pode se esconder e que precisa se preocupar. É uma abordagem que pensa no futuro. Mas cuidado aqui: não estamos falando do futuro da governança. Que esse ninguém conhece. O curso vai apoiar esse profissional a interpretar fatos, analisar casos e decisões já tomadas com um viés atualizado, com uma leitura mais moderna, considerando o momento de hoje. Vamos apoiá-lo para ser um melhor conselheiro no momento atual. O programa faz o conselheiro olhar para os assuntos que ele deve se preocupar, mas que hoje, talvez, ele se preocupe pouco. É uma preparação de abertura de horizontes mentais, de expansão de consciência, sobre como a governança vem se transformando pouco a pouco. 'Será que os conselheiros estão fazendo o que devem, como devem e como podem? Será que estão usando recursos adequados?’ E não olhamos apenas para o processo decisório, ajudamos este conselheiro a olhar para a gestão, porque os responsáveis pelas entregas do dia a dia são as pessoas. E, muitas vezes, esse profissional nem conhece essas pessoas. A comunicação está entre os pilares do programa, pois há diferentes estilos de comunicação nas empresas. Isso, inclusive, é muito simulado ao longo do curso.

A próxima edição do curso Avançado para Conselheiros de Administração começa em 29 de setembro de 2022 e as inscrições seguem abertas no site do IBGC. Saiba mais clicando aqui.