ESG e companhias abertas: “há um grupo que precisa evoluir mais rápido”

Eduardo Lucano, presidente da Abrasca, fala sobre os desafios do mercado de capitais no Brasil

  • 29/07/2022
  • Gabriele Alves
  • Bate-papo

Presidente executivo da Associação Brasileira das Companhias Abertas, a Abrasca, Eduardo Lucano diz que ESG (sigla em inglês para os critérios ambientais, sociais e de governança) é um dos temas que mais define a nova trajetória das companhias abertas e seu relacionamento com os stakeholders. Para ele, o momento do mercado de capitais e de serviços financeiros é voltado a saber como as empresas relatam o impacto de suas atividades à sociedade e como estão agindo a respeito dos desafios ambientais, sociais e de governança mais amplos a que devem responder.

Na análise de Lucano, uma parcela numerosa de empresas ainda precisa acelerar o movimento rumo a este horizonte. Ele ainda falou sobre a emergência climática, as oportunidades que enxerga no metaverso e comentou porque a Abrasca é contra a proposta da B3 de alterar a metodologia do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE). Confira a entrevista completa a seguir:

BLOG IBGC: Como a Abrasca caracteriza o mercado de capitais brasileiro hoje, considerando a transformação digital, a pandemia, o aumento de jovens investidores, os conflitos geracionais, os fatores ESG e outras mudanças relevantes da contemporaneidade?
Eduardo Lucano: O mercado de capitais brasileiro tem consistentemente evoluído ao longo dos anos e, hoje, representa uma das fontes mais relevantes de financiamento do investimento privado na nossa economia. O passado recente, antes do recrudescimento da inflação, mostra que é muito boa a resposta do mercado de capitais a um ambiente macroeconômico de estabilidade e taxas de juros compatíveis com isso. O ingresso de investidores, bem como as captações pelas empresas, comportou-se de maneira muito positiva, registrando recordes expressivos. As mudanças por que passam as economias e a sociedade, inclusive a brasileira, revelam-se oportunidades ímpares para o desenvolvimento do mercado de capitais. O desafio climático exige investimentos substanciais, o que implica o concurso do mercado para seu financiamento, acompanhado de novos padrões de transparência ESG com reflexos na contabilidade. A transformação digital está promovendo uma grande reestruturação dos processos produtivos globais, o que afeta a competitividade das empresas e exige importantes investimentos, naturalmente tendo o mercado de capitais como instância de apoio.

Como a Abrasca avalia o comportamento do investidor brasileiro a respeito da emergência climática documentada em importantes relatórios da ONU?
Os investidores institucionais e os gestores profissionais de carteiras estão atentos às tendências globais de utilização de critérios ESG na análise de investimentos. Da mesma forma que no caso das companhias, há assets mais avançadas e outras iniciando o desenvolvimento de suas metodologias. A Abrasca, em conjunto com a Amec e a B3, está promovendo o Fórum ESG Investidores & Empresas. É um ciclo de 16 webinares em que companhias e gestores precursores, com mais experiência, dividem seus conhecimentos. Além disso, são chamados representantes dos principais frameworks, como SASB, TCFD, Relato Integrado, CDP e GRI. A participação tem sido muito elevada. O Fórum deixará um legado de gravações em vídeo e textos de referência sobre os conteúdos abordados.

Quais são os maiores desafios neste contexto e em que o Brasil precisa melhorar?
Junto com o avanço da importância do mercado de capitais no financiamento das companhias vem o aumento das demandas dos investidores na robustez da governança, na mitigação dos riscos ESG e na transparência, especialmente quanto a essa última questão. Todas as demandas mencionadas precisam estar integradas no planejamento estratégico das companhias de maneira consistente. A cultura corporativa deve ser aperfeiçoada para que todos os colaboradores remem coordenadamente na mesma direção. É um desafio e tanto, principalmente considerando que há questões novas a serem respondidas. Pontos controversos causam dúvidas não só para os emissores brasileiros como em todo mundo. A contabilização de créditos de carbono, por exemplo, ainda não está pacificada e consolidada tecnicamente. O Brasil possui um grupo de companhias abertas que não fica nada a dever aos melhores padrões hoje praticados no mundo. Mas há um grupo, quantitativamente mais numeroso, que precisa evoluir mais rápido para acompanhar os líderes precursores.

Como tem sido a atuação da Abrasca junto a órgãos reguladores como a CVM e reguladores internacionais como a SEC?
A Abrasca mantém uma interação permanente com a CVM, o que é facilitado pela favorável disposição dos quadros da autarquia em dialogar com o mercado. Além disso, a nossa entidade tem grande empenho em participar das audiências públicas da CVM com a maior profundidade técnica possível. Cada tema é analisado nas comissões técnicas da associação, são criados grupos de trabalho e elaboradas minutas de posicionamento para posterior envio aos representantes de todos os associados, permitindo ampla participação. Recentemente, a Abrasca participou da audiência da SEC sobre as novas normas de disclosure climático. Nosso posicionamento foi análogo, em extensão e profundidade, ao da NYSE, por exemplo.

Recentemente, a Abrasca pediu à CVM que estudasse o metaverso. Por que o pedido?
O metaverso é um recurso tecnológico que pode ser usado para promover assembleias gerais virtuais ou híbridas, permitindo uma experiência imersiva. É uma nova opção que se abre para aumentar a participação dos acionistas nos conclaves societários, e com qualidade. Já houve um caso na Europa de assembleia realizada no metaverso. Daí, considerou-se necessário entender a visão do regulador sobre a ferramenta, como forma de preparar o terreno com vistas a uma eventual utilização.

Por que a Abrasca é contra a proposta da B3 de alterar a metodologia do ISE? Que importância a instituição vê na atual metodologia?
Um dos maiores méritos do ISE é definir padrões de sustentabilidade adequados ao cenário brasileiro, compatíveis com a realidade do país e das companhias. No entanto, a metodologia proposta de avaliação de risco reputacional considera a exposição na mídia de nível internacional pouco dedicada à realidade local. Considera-se, ainda, que o método já foi utilizado para avaliação socioambiental de companhias que passavam por análise de crédito de instituições financeiras. A constatação de quem utilizou a ferramenta é que não mostrou um conhecimento adequado das mídias brasileiras para seleção de notícias relevantes oriundas de fontes confiáveis. Logo, o impacto das notícias na avaliação reputacional das companhias era constantemente interpretado com cautela, e não de forma isolada. Entendemos também a necessidade de uma maior transparência quanto à composição, forma de apuração, critérios e definição da nota reputacional. Tal transparência é fundamental para que as empresas possam mapear suas lacunas e definir seus planos de ação para melhoria de suas notas.

E, neste momento, quais recomendações você têm a compartilhar sobre a Governança Corporativa e o Mercado de Capitais Brasileiro?
O mercado de capitais exige das companhias abertas um compromisso crescente com sua cidadania corporativa. Mais do que negócios visando ao lucro para seus acionistas, as organizações empresariais tornam-se agentes da promoção da prosperidade para todos, da defesa de valores socialmente justos e da resposta às transformações climáticas que ameaçam o planeta. Embora a governança contribua com apenas uma das letras da sigla ESG, ela encerra o conceito que articula os demais. O desenho adequado da governança de cada empresa é uma exigência do mercado de capitais para as que emitem valores mobiliários, mas é principalmente o ponto de partida para sua perenidade e sustentabilidade.

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