Quando a boa governança transforma riscos em oportunidades

Em terceiro e último artigo da série sobre riscos globais, Grazielle Parenti compartilha análise sobre papel dos conselhos no cenário de desordem climática

  • 16/05/2022
  • Grazielle Parenti, vp global de relações institucionais, reputação e sustentabilidade (BRF)
  • Artigo

Gerir riscos é uma atividade intrínseca a administrar. Mas esses riscos não se relacionam apenas com o negócio em si. Eles dizem respeito à sociedade e a todo o planeta. O melhor exemplo são os riscos ambientais, tão em pauta nos últimos anos e, ao mesmo tempo, tão ignorados por parcela importante dos tomadores de decisão.

Segundo o último relatório Global Risk Report, publicado pelo Fórum Econômico Mundial e divulgado em janeiro de 2022, existem severas ameaças que o mundo não pode ignorar. Em um mundo em crescente desordem social e constante insegurança cibernética, a maior parte dos respondentes da pesquisa que embasou o relatório não hesitou em eleger as mudanças climáticas como o principal risco para o planeta, mesmo diante de uma pandemia e do surgimento de conflitos armados de grandes proporções e com desfecho incerto. A preocupação ambiental aumenta conforme a projeção de tempo é maior, tornando-se ainda mais relevante até o fim desta década.

Mas em um cenário global com tantas incertezas, uma coisa permanece certa: as organizações precisam não somente lidar com essa transformação, mas ir além e identificar como irão prosperar nesse novo cenário. Para isso, elas precisam, primeiramente, identificar quais são os riscos que impactam direta e indiretamente os negócios e, na sequência, olhar com “mente aberta” quais são as oportunidades. É para esta tarefa que está colocada a importância de uma boa governança e para qual se torna ainda mais essencial a existência de um conselho de administração comprometido com a perenidade da empresa.

Uma companhia descolada da realidade em que vive certamente terá sérias dificuldades em se adaptar às constantes transformações, colocando em risco sua própria sobrevivência. Os riscos se tornam diretamente proporcionais ao tamanho e complexidade da operação da empresa. Ou seja, quanto mais inserida nas cadeias globais de suprimentos, maior a necessidade de antever percalços e colocar em prática ações mitigatórias. A boa governança permite justamente que exista um fluxo de informações eficaz e rápido, onde eventuais problemas podem ser identificados em sua fase inicial e as oportunidades reconhecidas. Pode parecer estranho e insensível falar em ‘oportunidades’ num cenário como o da desordem climática, mas elas existem e devem ser ressaltadas.

De acordo com o próprio relatório mencionado no início deste artigo, o sistema financeiro mundial está se redirecionando para as políticas net zero. Uma parcela considerável de 100 trilhões de dólares já está voltada para soluções voltadas ao clima e, até 2050, há um total de outros 130 trilhões de dólares em capital privado comprometido com carbono neutro. No mesmo período, estima-se que as fontes de energia renováveis serão responsáveis pela criação de 40 milhões de empregos. Tanto para contornar os riscos quanto para lidar com a novas possibilidades, entra em cena a governança corporativa.

Vale pontuar ainda que, em todo o mundo, principalmente após a pandemia de Covid-19, o consumidor vem ficando mais exigente com o comprometimento empresarial em prol do clima. Eles exigem uma gestão mais sustentável e transparente, amparada na responsabilidade social. As decisões corporativas precisam levar em consideração diversos aspectos tais como: o impacto das mudanças climáticas nas pessoas, o uso eficiente de recursos naturais na produção, o custo de uma transição energética, entre outros. Sempre em direção à uma economia carbono neutro.

Pensar de modo estratégico, com objetivo claro e visão do todo, investir na tecnologia para viabilizar as oportunidades e trazer as pessoas nessa jornada, fará com que uma empresa possa ser mais bem-sucedida nesse cenário de tantas transformações. Um bom conselho apoiando a gestão se reflete nas melhores decisões, reduzindo a exposição da companhia e aumentando a sua credibilidade perante seus públicos de interesse: investidores, parceiros comerciais, funcionários, comunidades entre outros, gerando assim mais valor para os acionistas e para todo o planeta.

Sobre a autora:  Grazielle Parenti é presidente do conselho de diretores da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos e vice-presidente global de relações institucionais, reputação e sustentabilidade da BRF. Em 2021, foi eleita pela Forbes como uma das 100 Mulheres Poderosas no Agro.

Este artigo é de responsabilidade dos autores e não reflete, necessariamente, a opinião do IBGC.

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